De dia 12:
Perdida no mais alto mar
ao sabor da ondulação
deriva uma só embarcação
sem destino ter, nem lugar.
O seu nome é Nau Trotineta
e ao comando seu lá vou eu.
Pedalo sempre rumo ao céu,
sempre evitando a linha recta.
Deixei para trás minh'aldeia,
só que por ter alma de artista
do trajecto perdi a pista
fascinado p'la lua cheia.
E agora? Mas que grande bosta!
Pouco falta para estar morto...
Há dias que não se vê porto.
É que nem sequer uma costa!
Acabaram-se os mantimentos,
sobrevivo de água do mar,
mas isto não pode durar,
que quilos já perdi duzentos!
Encostado à proa, a esperança
perdeu-se no rasto da popa.
Sabia mesmo bem uma garoupa...
Mas nada pr'acalmar a pança.
Enfim. Uma vez conformado
co'o final da minha história,
à cabeça vem-me a memória
de momentos do meu passado.
As batalhas que combati!
Inimigos que degolei!
Víuvas que a seguir violei!
Condecorações que obti'!
Das lembranças o maior mote
são as gajas que já papei!
Oh, e como rejubilei
se deixavam ir ao pacote!
Fecho os olhos e espero o fim.
Brado meu adeus em voz alta.
Um som porém me sobressalta.
Abro os olhos... 'stou sem latim!
Alguém se aproxima... a voar!
Será uma espécie de anjo?
Será da morte algum arcanjo?
Ou estarei eu a alucinar??
Mas não... é humano este ser!
E está a vir pr'aqui! Pequenina,
a cara tem-na de menina
mas o corpo, esse é de mulher.
Só consigo exclamar um: "Hã?!"
Até que poisa no convés.
Esfrego os olhos, conto até dez...
"Olá. Chamo-me Patty Pan."
Dou por mim todo abananado,
tenho em turbilhão os neurónios.
Acho que se fosse unicórnios
não ficava tão admirado!
"Então! Manda a educação
que te apresentes, como eu fiz!"
... "Desculpa. Sou o capitão RiS.
Mas que inesp'rada aparição!"
"Bem, vinha a passar e achei estranho.
Estás longe de tudo e sozinho."
"Pois é... Sem comida nem vinho!
Nem água para tomar banho..."
"! Que bom que te vi nesse caso...
Tem calma. Nada está perdido.
Já basta o que tu tens sofrido.
Vou-te pôr em Burkina Faso!"
"Ena!!! És a minha heroína!
Tiraste-me cá de um sarilho...
Queres que te faça algum filho???
Preferes encomendas da China?"
"Não, não... não preciso, obrigada.
Gosto de fazer boas acções.
Porém tenho umas condições!
E vais ver que não custa nada.
Apenas peço uma promessa:
Carne nunca mais comerás.
Que os animais vivam em paz!
É só, nada mais me interessa."
O quê?! Minha alma está partida!
Eu gosto tanto de um bom bife... :\
Mas nada de armar em xerife,
ela está-me a salvar a vida...
Acedo. Ela faz-me sinal
e eu subo-lhe às cavalitas.
Voamos à luz de estrelitas
em viagem que não tem igual.
E por fim piso terra firme.
Meu deus... sensação mais sublime!
Até choro, pois comovi-me,
e com os nervos desato a rir-me.
"Mil thanks!... queres o meu telemóvel??"
"Nahhh, vá, deixa-te lá de tretas."
Despede-se entre piruetas
e vai-se... assisto imóvel.
"Pá, jamais 'squecerei o rosto
da minha linda salvadora...",
reflicto, de volta à Amadora,
enquanto trinco um entrecosto!